Ansiedade Matemática: O Pavor pela Matemática tem Nome (e Cura!)

Os campos de conhecimento relacionados à Matemática (ciências, engenharia, finanças, etc) estão associados a trabalhos de maior qualidade e mais bem-remunerados.

Isso, somente, já é uma boa motivação para que crianças e jovens aprendam a Matemática básica que aplicarão no futuro, quando ingressarem no mercado de trabalho. (Sem contar com outros benefícios indiretos da linguagem dos números no trabalho e na vida, como o desenvolvimento do raciocínio lógico e analítico, a melhora na memória de trabalho, etc.)

No entanto, é muito comum que essas crianças e esses jovens apresentem um comportamento de aversão à Matemática (e às matérias escolares que a utilizam de forma instrumental, como a Física). Em geral, esses alunos apresentarão baixo desempenho escolar na matéria (notas ruins, comportamento desinteressado), e tenderão a escolher carreiras que não sejam baseadas em números, padrões e formas – limitando não apenas as suas opções profissionais, como agravando o problema de mão-de-obra qualificada que o nosso país enfrenta.

Pois esse comportamento, infelizmente muito comum no nosso país, tem nome: Ansiedade Matemática.

Segundo o Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento (LND) da UFMG, a ansiedade matemática é uma fobia específica, acionada quando o seu portador se vê diante de um objeto, relação ou problema envolvendo a Matemática.

De acordo com o LND/UFMG, essa ansiedade pode se manifestar no aluno em três componentes: (1) cognitivo (avaliações de  situações e eventos como um risco antecipado, e a ideia de que não vai conseguir resolver o problema e de que vai ser ridicularizado pelos pares); (2) fisiológico (ativação das áreas do cérebro responsáveis pelo medo e pelas respostas de luta/fuga; taquicardia, tremor, sudorese); e (3) comportamental (fuga ou evasão ao estímulo aversivo; mau comportamento em sala de aula, como forma de não encarar a tarefa ou a lição).

No Brasil, o problema com a ansiedade matemática é bastante grave. Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), no Brasil, 49% dos estudantes entrevistados reportaram alta ansiedade matemática. Nos outros países pesquisados, essa média foi de 31%. Isso, é claro, se traduz em mau desempenho na escola e em testes internacionais de aferição do conhecimento matemático dos alunos, como o PISA (Programme for International Student Assessment), aplicado pela própria OCDE.

Sintomas

Como dito acima, a ansiedade matemática é uma fobia específica. Ela se manifesta quando o paciente se vê diante de um objeto, uma relação ou um problema matemático. Mesmo a menção à palavra “Matemática” pode provocar estímulos de ansiedade aos portadores dessa fobia.

No cérebro, essa ansiedade se manifesta pela ativação da amígdala, responsável pelas sensações de medo e alerta. É como se, para o nosso sistema nervoso, uma equação fosse tão perigosa ou aversiva quanto um urso nos perseguindo em uma floresta. Quem possui alta ansiedade matemática tem reações fisiológicas próximas ao pânico. Ela entra em estado de confusão mental, tem suas capacidades cognitivas (neocórtex) seriamente afetadas, sua memória de trabalho (funções executivas) é drasticamente reduzida, enquanto perdurar esse estado.

É óbvio que, em uma situação de risco de morte, nosso corpo é programado para correr do perigo, e afastá-lo com toda veemência. Quando uma aula, um problema ou um teste acionam esse mecanismo biológico (em princípio, absolutamente saudável e essencial à nossa sobrevivência), deixamos de ser capazes de raciocinar adequadamente. Assim, o aluno que sofre desse distúrbio tende a não conseguir prestar atenção na tarefa à sua frente, afetando severamente seu desempenho, o que tende a gerar ainda mais pânico e aversão – alimentando um círculo vicioso que pode perdurar a vida inteira.

É claro que a ansiedade matemática não tem qualquer motivo racional. Afinal, disparamos mecanismos de defesa diante de algo que, nem de longe, constitui-se em uma ameaça para a nossa vida ou para o nosso bem-estar. Entretanto, muitas das fobias que desenvolvemos ao longo da vida (e não nascemos com elas) são igualmente irracionais, mas costumam causar intensos transtornos a quem as sofre.

Causas

Primeiramente, precisamos frisar que a ansiedade matemática não é um distúrbio congênito. Ela não decorre de má formação cerebral, ou de ativação indevida de áreas do sistema nervoso (como no caso da discalculia, ou dificuldade natural para realizar operações matemáticas e senso numérico afetado). Esse transtorno é adquirido, e algumas de suas causas já são conhecidas.

Em geral, essas são as principais causas de ansiedade matemática em alunos em idade escolar:

  • Aspectos culturais. Essa talvez seja a causa principal: a transmissão da ansiedade matemática entre pessoas. A criança convive em um ambiente familiar em que os pais, irmãos mais velhos e outros adultos desenvolveram essa ansiedade, e manifestam ojeriza aos números. Ou frequenta ambientes (inclusive o escolar) em que outras crianças (e até mesmo professores) se dizem declaradamente inaptos para a Matemática. Ao longo do tempo, a criança internaliza conceitos como “números não são para mim”, “é possível vencer na vida sem aprender Matemática”, “aprender isso pra quê? Eu nunca vou usar isso na minha vida”, etc. São ideias errôneas e, ouvidas ao longo de anos serem ditas por todos ao seu redor, inculcam no aluno uma aversão à Matemática, em especial a partir do 6º ou 7º ano, quando a matéria se torna mais simbólica e abstrata.

 

  • Aspectos cognitivos. É o caso de pessoas que nasceram com discalculia (distúrbio congênito que afeta uma pequena parcela da população, e que é tratável, se diagnosticada e trabalhada no tempo certo). Ao longo da vida escolar, pessoas que de fato possuem senso numérico prejudicado, e que não recebem qualquer educação especial, tendem a acumular dúvidas e dificuldades ao longo do Ensino Básico; a Matemática é um suplício, um obstáculo horrível a ser superado e esquecido o quanto antes. O mau desempenho na matéria gera mais ansiedade, e essa retroalimenta o mau desempenho, etc.

 

  • Aspectos pedagógicos. Essa também é uma causa especialmente gravosa no Brasil, onde o ensino matemático enfrenta enormes desafios. É sabido que professores do Ensino Fundamental, em especial da rede pública, não possuem formação adequada em Matemática. Ensinam com métodos obsoletos, confusos e mecanizados. Quando muito, conhecem vagamente os conceitos que ensinam. Em situação de sala de aula, não estão preparados para responder a muitas das dúvidas dos alunos (em particular os mais criativos ou questionadores). Com isso, manifestam, eles mesmos, ansiedade matemática, que é imediatamente percebida e mimetizada pela turma de alunos (“se nem o professor consegue entender isso, que dirá eu”). Analogamente, pais que são instados pelos filhos a ajudá-los nas suas tarefas de casa também podem manifestar pânico e ansiedade com a matéria, o que acaba sendo percebido e assimilado pelo filho.

Tratamento

Felizmente, a ansiedade matemática é perfeitamente tratável e curável. Eis algumas das medidas conhecidas de maior eficácia para combater esse distúrbio:

  • Mudança de Cultura. Inserir o aluno em um meio onde seja normal o apreço pela Matemática é um bom primeiro passo para diminuir a ansiedade em relação à matéria. Essa mudança pode se dar com medidas mais incisivas como a mudança de escola, ou mesmo com pequenas mudanças de postura no ambiente familiar. Laboratórios de ciências, classes de robótica, ou qualquer atividade que promova a experimentação e não puna o aluno por eventuais erros são também boas formas de criar afeição pelos objetos e relações matemáticas.

 

  • Mudança de Postura. Como dito acima, a mentalidade em torno da Matemática diz muito sobre a manifestação de ansiedade. Quando o aluno acredita em mitos como “meu cérebro não foi feito para a Matemática”, “meninas são piores que meninos em habilidade numérica”, “isso é uma perda de tempo e não vai servir para nada”, criam-se as condições para o desprezo pela matéria. Quando o aluno acredita que é capaz de crescer e de se desenvolver através da persistência e de seus erros, os resultados são extraordinários, como demonstra a pesquisadora e professora Jo Boaler. É simplesmente uma questão de mentalidade (Growth Mindset): acreditar em si mesmo é o primeiro passo para superar as dificuldades com a Matemática – não só no Ensino Básico, como no Superior e no Pós-Superior.

 

  • Tutoria. Segundo estudo promovido pela Stanford University, uma das mais conceituadas quando o assunto é educação matemática, a presença de um tutor (professor particular) reduz a ansiedade matemática de crianças, que passam a se sentir mais acolhidas em suas dúvidas e dificuldades, e se tornam mais confortáveis no trato com os números.

 

  • EFT. A abordagem Emotional Freedom Technique é trazida pela pesquisadora Dr. Katie Nall. De acordo com a especialista, essa técnica possui mais de 30 anos de aplicação. Nela, o paciente aplica leves pressões com os dedos em diferentes pontos de tensão do próprio rosto e mãos, enquanto repete frases como “eu sinto ansiedade, mas, aqui e agora, me sinto seguro”. Segundo a Dr. Nall, essa técnica traz resultados promissores (ver vídeo abaixo, em inglês):

Conclusão

Quase 50% dos nossos estudantes sentem ansiedade matemática, e isso é claramente um obstáculo ao seu crescimento pessoal, e mesmo ao desenvolvimento do nosso país, que não é capaz de suprir vagas de emprego de alta qualificação (especialmente quando envolvem carreiras ligadas à Matemática, como a engenharia, a tecnologia da informação, etc.).

Muitas são as causas conhecidas desse distúrbio. As mais comuns e mais persistentes são: a causa cultural (odeio Matemática porque todo mundo ao meu redor também odeia), cognitivos (não consigo lidar com números) e pedagógicos (não sei Matemática e não tenho quem me ajude).

Entretanto, apesar de muitas pessoas manterem sua ansiedade para o resto de suas vidas, trata-se de um mal tratável e curável, se trabalhados os aspectos cultural, cognitivo e pedagógico (e mesmo outros tratamentos com mais apelo ao lado emocional e neurolinguístico, como o EFT, descrito acima).

É crítico que a sociedade brasileira conheça a ansiedade matemática, fale sobre ela e a combata ativamente. Só assim, garantiremos um melhor aprendizado aos nossos filhos, assegurando, também, um futuro com mais riqueza, conhecimento e oportunidades para todos.